MATÉRIAS COMPLETAS - Resumo Principal - ANO 1 - N°01 - JAN/FEV 1998

A forte pressão que as rápidas mudanças de mercado exercem sobre o médico veterinário,
obriga-o a se atualizar constantemente sobre as novas descobertas científicas.
Esta é a razão de trazermos aos clínicos uma série de artigos sobre a Piodermite
em cão, doença freqüentemente crônica e de difícil tratamento.

O autor deste trabalho, que se inicia nesta edição é Peter J. Ihrke autor do livro
"Bacterial Skin Diseases in the Dog a Cuide to Canine Pioderma".

ANATOMIA DA PELE E SUA RELAÇÃO COM A INFECÇÃO BACTERIANA

Doenças bacterianas da pele são vistas com mais freqüência em cães do que em qualquer outro mamífero. A maioria dos fatores conhecidos como potencialmente envolvidos no aumento desta suscetibilidade à piodermite são certas diferenças anatômicas quando comparadas com outras espécies.

O fino e compacto extrato córneo canino (figura 2.1) - com seu material intercelular esparso e rico em lipídeos - representa uma barreira epidérmica pouco eficiente contra o potencial invasor de bactérias entre os folículos pilosos, acarretando uma freqüência aumentada da área de infecção bacteriana superficial.
Infecções superficiais do folículo piloso representam o grupo mais comum de doenças bacterianas da pele nos cães. Conseqüentemente, o folículo piloso, no cão, deve ser considerado como uma porta de entrada de bactérias. Mason e Lloyd consideram que uma falha na estrutura do tampão lipídico-escamoso epitelial no óstio do folículo piloso canino pode favorecer o aparecimento de foliculites superficiais em cães.

MICROFLORA NORMAL DA PELE E PÊLO DO CÃO

A flora microbiana da pele é composta de bactérias residentes e transitórias. As bactérias residentes multiplicam-se sobre a superfície da pele e no folículo piloso, mantendo uma população estática e consistente, e são consideradas como comensais inofensivos. As bactérias transitórias provavelmente proliferam na pele em locais ou membranas mucosas e sob circunstâncias normais não podem competir de forma eficaz com a flora residente estabelecida, para assegurar um nicho ecológico. O número total de bactérias residentes encontradas na pele normal do cão não é grande. Ihrke e outros pesquisadores encontraram uma média geométrica de apenas 329 organismos/ cm` em 15 cães normais.

Examinando a flora bacteriana de 10 cães as principais bactérias encontradas foram Micrococcus, estreptococos aa-hemolítico e Acinetobacter sugerindo pela presença uniforme e constante que estas bactérias pertencem provavelmente à flora residente da pele canina. Culturas anaeróbicas provenientes da pele de cães sadios indicaram a presença de Clostridium perfringens em quantidade tão restrita que, provavelmente, não pode ser considerada como pertencente à flora residente.

Recentemente, outros pesquisadores cultivaram anaeróbicamente uma bactéria, proveniente de 11 cães normais, com semelhanças bioquímicas e de cultura com o Propionibacterium acnes. Os estafilococos coagulase-positiva isolados por Krogh e Kristensen foram os únicos isolados da pele de cães sadios considerados como patógenos capazes de provocar piodermite canina. Os dois estudos iniciais foram publicados antes que o esquema revisado de classificação (classificando os estafilococos coagulase-positiva responsáveis pela maioria das doenças anteriormente denominadas Staphylococcus aureus como Staphylococcus intermedius) proposto por Hajek e Marsalek tivesse alcançado a aprovação universal. Para maior clareza, os estafilococos coagulase-positiva isolados da pele canina descritos incorretamente como Staphylococcus aureus na literatura mais antiga, serão referidos neste texto pelo seu nome apropriado, Staphylococcus intermedius.

A participação dos estafilococos coagulase-positiva na flora normal da pele canina e da pelagem ainda continua controversa. Hearst reportou que S. intermedius pôde ser cultivado a partir de pêlos não cortados provenientes da fronte de 100 cães sadios (de pet shops). Porém outros pesquisadores não conseguiram cultivá-lo a partir de pele retirada das regiões lombar e torácica de outros 15 animais livres de doença de pele. Utilizando a técnica inicialmente empregada por Hearst, White e outros conseguiram cultivar S. intermedius a partir de 18 de 20 cães sadios. Eles sugeriram que as populações de organismos da pelagem, devem ser separadas e distinguidas da população encontrada sobre a pele abaixo dos pêlos e que estes organismos podem agir como um reservatório, com grande potencial de proliferação na pele subjacente.

Nos humanos, foi sugerido que as populações de bactérias do cabelo são mais provenientes do ambiente do que residentes e que o cabelo pode agir como uma "armadilha" para bactérias. O ressecamento e a falta de nutrientes na ponta dos cabelos também sugerem um ambiente pobre para replicação bacteriana e conseqüentemente de sua presença. Devriese e outros observaram vários locais da pele e de membranas mucosas de 50 cães sadios (de propriedade particular), e em 46 animais isolaram S. mtermedius. Cerca de 50 % dos cães apresentavam alta população anal; um pequeno grupo exibiu forte transporte para as narinas. Os autores sugeriram que (semelhante ao que ocorre no humano) o anus e as narinas são sítios transportadores para estafilococos coagulase-positiva no cão e que estas regiões atuam coma sítios transportadores para a proliferação nos pelos e pele.

Juntos, os dados combinados sugerem que o S. intermedius e provavelmente um contaminante do pelo canino sadio ou também um contaminante ou um transitório, presente em local restrito da pele canina sadia, mais que um residente verdadeiro. Ademais, membranas mucosas como as do anus e narinas são provavelmente locais de transporte de bactérias potencialmente patogênicas. O hábito de se limpar em cães sadios e o excesso de lambidas em cães com prurido podem facilitar a proliferação destas bactérias a partir destas membranas mucosas.

STAPHYLOCOCCUS INTERMEDIUS E OUTROS PATÓGENOS CUTÂNEOS CANINOS

Os estafilococos coagulase-positiva foram durante muito tempo considerados como os principais patógenos bacterianos cutâneos no cão.

A classificação correta desta bactéria como S. intermedius, uma espécie separada e distinta do patógeno humano S. aureus, foi realizado logo em seguida. Culturas puras de S. intermedius coagulase-positiva foram desenvolvidas a partir de pústulas ou de drenos de cães com piodermite. Na maioria das circunstâncias, quando bactérias gram-negativas como Proteus, Pseudomomas ou Escherichia coli são cultivadas a partir de piodermite canina, elas crescem junto com S. intermedius a partir de lesões expostas. A infecção por S. intermedius propicia a proliferação de agentes bacterianos invasores secundários gram-negativos. A hipersensibilidade a antígenos estafilococicos pode promover a penetração destes antígenos devido a alteração da permeabilidade das barreiras epidérmicas. Quando examinados, os fatores de virulência comparando-se o S. intermedius isolado de cães sadios daquele proveniente de cães com piodermite, indicaram não haver claras diferenças no perfil da toxina, SDS-PAGE (eletroforese em gel do s6dio dodecil sulfato poliacrilamida) de exoproteínas, ou imunofaixas de concentrado de proteínas extracelulares. Baseado no conhecimento atual, o hospedeiro mais que os fatores de virulência parece ser mais importante na determinação do resultado dos casos de piodermite canina.

ALTERAÇÕES NA MICROFLORA OBSERVADA NA DOENÇA DA PELE

Os fatores que favorecem a proliferação de S. intermedius sobre a pele e levam provavelmente a piodermite são pouco conhecidos. Entretanto, vários estudos indicam que cães com outras doenças de pele são mais suscetíveis a apresentar piodermite secundária. Não surpreendentemente tem sido demonstrado que cães com piodermite não apresentem flora bacteriana normal colonizando regiões do corpo sem piodermite evidente. Num estudo em cães com furunculose, áreas aparentemente sadias da pele apresentaram um aumento da freqüência e intensidade de colonização de estafilococos patogênicos.

Pesquisas recentes demonstraram que as populações de estafilococos patogênicos coagulase-positiva aumentam na pele sem lesões de cães com piodermite. Cães com anormalidades na corneificação apresentam uma modificação no balanço das espécies bacterianas colonizadoras da pele de modo que os estafilococos coagulase-positiva predominam. Freqüência e densidade mais elevadas que o normal de estafilococos patogênicos foram observadas na pele com ou sem lesão; entretanto, a contagem bacteriana foi significantemente mais alta na pele lesionada. Conseqüentemente, não e de se surpreender que clínicos tenham observado um aumento da freqüência de piodermite em cães com seborréia a partir de uma modificação acentuada na quantidade e qualidade da população patogênica residente. Quando alterações de longo tempo ocorrem no micro-ambiente cutâneo devido a doenças alérgicas crônicas, a proliferação de S. intermedius pode levar a uma piodermite recorrente.

POTENCIAL ZOONÓTICO DOS PATÓGENOS DA PELE CANINA

A classificação de S. intermedius como espécie separada e distinta do S. aureus explica parcialmente porque seres humanos com um sistema imunitário funcionando normalmente não são considerados em grande risco em relação a estafilococose da pele canina ou infecções em feridas (com exceção das feridas por mordedura de cães). Em condições normais, os proprietários de cães com piodermite estafilocócica não estão sob risco de infecção bacteriana zoonótica. Um artigo de revisão recente sobre o potencial zoonótico de pets de propriedade de pessoas imunocompromissadas, não estabeleceu relações associadas a patógenos da pele canina. Entretanto, em estudo prévio, o S. intermedius foi isolado da gengiva de 39 % de 135 cães. Quando estafilococos coagulase-positiva foram previamente coletados de doentes, os ferimentos causados em humanos por cães foram reanalisados, e 21% das 14 cepas isoladas foram de S. intermedius. Estes achados foram corroborados por outros pesquisadores.

Conseqüentemente, a permanência de um cão com piodermite supurativa severa junto a uma pessoa imunocompromissada deveria ser levada em consideração. Dados adicionais de interesse da saúde publica foram publicados recentemente. Uma fonte previamente não considerada de resistência a antibióticos e a transferência de plasmídeos resistentes de bactérias carreadas por animais domésticos a bactérias de importância patogênica em humanos como o S. aureus. Plasmídeos resistentes de infecções humanas podem ser transferidos para patógenos caninos da mesma maneira.

Na próxima edição de N0SS0 CLÍNIC0, trataremos de "Piodermite Canis _ Suscetibilidade e Resposta do Hospedeiro à Infecção". (Traduzido pela doutora Dominique F. Adam P. da Silva)