MATÉRIAS COMPLETAS - Resumo Principal - ANO 1 - N°01 - JAN/FEV 1998

Casa que não tem pão, todo mundo briga e ninguém tem razão. Falar em Ética sem pensar no contexto social, econômico e político, pode ser um bom discurso, mas ficará distante da real possibilidade de exercê-la. Falemos de Ética a partir das necessidades básicas do homem.

Todo ser humano, tem que ter suas necessidades atendidas para poder realizar algo maior. Vivemos um período quase de pré-recessão. Todos lutam por uma sobrevivência profissional, social e econômica que há muito tempo não ocorria na realidade brasileira. As pessoas disputam um lugar ao sol, de forma diferente de até então.

Poderemos analisar Ética a partir da primeira necessidade do ser humano, básica para a sobrevivência e que nunca estará completamente satisfeita, que visa suprir fome, sede e sono. Além de estar intrínseco é também estimulado pelo marketing do consumo. Beba isto, coma aquilo, que muitas vezes já não está mais ao alcance de muitos, com a mesma facilidade que ocorria anteriormente. Isto traz conflitos internos e sensação de menos valia. Em seguida vem a necessidade de conforto, de ter casa e de se vestir bem. Junto a isto, estão também as necessidades psíquicas, tais como o temor do desconhecido, do novo, do não familiar, das mudanças que estão ameaçando a todos, a instabilidade econômica, o medo do futuro. Além das despesas para comer, vestir e morar, temos preocupação com planos de saúde, aposentadoria, com a manutenção do próprio trabalho e, principalmente, o medo de se expressar, protestar, reivindicar.

O médico veterinário tem uma profissão que não atende ao homem diretamente, mas ao seu animal, que muitas vezes não pode contar com recursos para ser tratado. Entre comer, pagar as contas e levar seu animal de estimação ao veterinário, esta última situação será protelada ao máximo. É neste momento que outra necessidade básica do homem, além de atuante, acaba por gerar angústia e dúvida. Todos nós queremos afeto social.

Queremos pertencer, ter relações afetivas de maior duração com familiares, amigos, parentes e num refinamento maior, com nossos animais de estimação. Para este estágio de desenvolvimento humano, ter geladeira cheia, caderneta de poupança charme sexual para atrair parceiros é muito importante. Alimentar o animal, levá-lo ao veterinário, comparação, aplicar vacina, também faz parte deste momento. É neste estágio que o veterinário faz a sua clientela . Só que não tem a certeza da permanência e continuidade deste cliente porque dependerá da condição financeira, estabilidade de emprego e até uma sobra de caixa. O veterinário tem a sua garantia de sobrevivência nas mãos de um cliente que está tão inseguro quanto ele. Esta é a diferença que a sociedade está vivendo agora . É uma insegurança em cascata.

Será que o veterinário, hoje, pode deixar de recorrer a todas as maneiras de atrair possibilidades de sobreviver economicamente, através d lojas tipo pet-shop? Falar de Ética clássica, aprendida nos bancos acadêmicos, diante de pressões econômicas excepcionais, merece mais ponderação. Ética precisa estar mais ligada à atitude do que nas atividades profissionais de veterinário ou comerciante e pet shop.

Hoje não se concebe mais uma clínica sem estar associada a um pet shop. Além de ser um reforço financeiro, mantém seu cliente no mesmo espaço físico. Isto gera uma certa rotina, acomodação e facilidade ao cliente.

Mas vamos além nas questões da necessidades de cada um. Um universitário, nogeral chegou a obter tal formação acadêmica, por estar inserido num contexto sócio-econômico mais privilegiado. Na sociedade brasileira isto é regra com poucas exceções. Daí o desejo de status, próprio de classe que já superara os estágios anteriores. As pessoas e principalmente o profissional liberal não só deseja como precisa se destacar como um pessoa especial. Só mantém clientela, por diferenciação. No momento que o veterinário oferece um atendimento de menor qualidade, ou igual a qualquer outro concorrente, está e perigo de sobrevivência profissional. Para isto o marketing do personalizado faz uma pressão quase insuportável. Na busca de status, as pessoas querem se mostrar com bom gosto, elegância e estética. O cliente também quer se sentir assim: especial, único, merecedor de toda atenção. A Ética tem que se coadunar com a realidade de todos que vivem num mesmo espaço social, cheio de pressões e exigências.

Poucos conseguem atingir o momento maior de atendimento às próprias necessidades que é o da realização pessoal, talvez a própria Ética. É o momento individual em que o sujeito pode amar sem interferir no outro. Pode ser curioso, alegre, otimista, inovador, ousado, humilde, justo tranqüilo e principalmente com um verdade intrínseca inabalável.

Isto não quer dizer que podemos corromper as leis básicas de qualquer profissão. A luta é pelo original, pelo diferenciado, não por uma concorrência baseada em abaixar preços, e muitas vezes atacar e denegrir colegas, sem no entanto conhecê-la.

As pessoas hoje têm mais requinte da situação. Num primeiro momento, parece que se deixou levar pelas aparências, mas num posicionamento futuro, elas afastam-se das falsa situações. Gera-se desespero e na maioria das vezes para manter a situação anterior, corrompe-se. Quebra-se a Ética e se valores morais internos. Este é o perigo. Somente uma formação moral forte, concreta, pode manter o indivíduo em equilíbrio; no geral estamos dentro desta guerra.

por Dr. Fernando Cezar Patitucci